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Redesenhando a rede do Homelab: introduzindo Core L3 Cisco e OPNsense

Redesenhando a rede do Homelab: introduzindo Core L3 Cisco e OPNsense

Uma jornada em quatro fases para redesenhar a arquitetura do Homelab, introduzindo Core L3 Cisco, segmentação de rede, novos papéis de infraestrutura e práticas de redes corporativas.

21 de setembro de 2026  •  10 min read


Um dos maiores desafios em um homelab é a arquitetura de rede. É muito comum começar com uma estrutura totalmente plana (todos os hosts na mesma VLAN), o que atende bem aos testes iniciais, mas logo vira um gargalo com a expansão dos serviços.

No passado, a adoção de um switch MikroTik CRS226-24G-2S+RM resolveu o problema imediato ao permitir a criação de VLANs e a segmentação do tráfego, mas ainda assim, a arquitetura continuava engessada, limitando a execução de novos projetos.

Essa limitação, aliada à chegada de novas tecnologias e à necessidade de explorar outras soluções, foi o que motivou o redesenho completo da rede — e a escrita deste artigo.

O texto está estruturado em fases que registram a evolução da topologia. Cada etapa detalha objetivos, endereçamento, configurações e validações.

Aviso

Este artigo é um registro de aprendizado, não um guia de implementação. Ele documenta as decisões e testes realizados em ambiente próprio e controlado. Como cada infraestrutura possui particularidades, adapte os conceitos à sua realidade antes de reproduzi-los.

Fase 0 - Arquitetura & Objetivos

1. Estado Original

  • Cenário inicial: O homelab foi originalmente construído em torno de uma arquitetura simples, centralizada no OPNsense como gateway, firewall e elemento de roteamento entre as VLANs. A conectividade interna era concentrada em um único switch, atendendo simultaneamente às funções de switching, transporte de VLANs e conexão dos principais serviços do ambiente.
  • Topologia / Setup: OPNsense -> Trunk 802.1Q -> MikroTik CRS226-24G-2S+RM
  • Equipamentos e tecnologias em uso: O ambiente utilizava OPNsense como firewall/gateway, MikroTik CRS226 como switch principal, VLANs 802.1Q para segmentação lógica e TrueNAS/Proxmox como plataformas para armazenamento e virtualização. A arquitetura era funcional e adequada ao estágio inicial do homelab, mas concentrava responsabilidades importantes em poucos elementos da infraestrutura.

2. Limitações Identificadas

  • Gargalo 1 — Concentração de funções: O desenho concentrava switching, transporte de VLANs e interconexão dos principais componentes em um único equipamento, limitando a evolução da arquitetura e aumentando a dependência do switch central.
  • Gargalo 2 — Separação limitada entre funções de rede: A arquitetura não representava claramente uma divisão entre routing, security e switching, dificultando a exploração prática de uma arquitetura hierárquica e de responsabilidades mais próximas das encontradas em ambientes corporativos.
  • Gargalo 3 — Baixa capacidade de experimentação: A infraestrutura anterior atendia bem às necessidades operacionais do homelab, porém oferecia poucas oportunidades para estudar, de forma prática, conceitos como inter-VLAN routing, políticas de acesso, redundância de funções, arquitetura de campus e operação de equipamentos de rede enterprise.

3. Objetivos

  • Objetivo Principal: Reestruturar a arquitetura de rede do homelab, introduzindo uma separação mais clara entre firewall/security, routing e switching, utilizando o Cisco C1111-4P e o Catalyst 3560CX como elementos dedicados da nova arquitetura.
  • Objetivos Secundários:
    1. Transformar o homelab em uma plataforma prática para estudo e experimentação de Cisco IOS, switching, routing e segurança de rede.
    2. Evoluir a segmentação existente, preservando as VLANs e políticas já estabelecidas onde fizer sentido.
    3. Reduzir a concentração de responsabilidades em um único equipamento.
    4. Criar uma arquitetura que permita testar diferentes cenários sem comprometer desnecessariamente os serviços existentes.
    5. Documentar o processo de migração, incluindo decisões, trade-offs, problemas encontrados e validações realizadas.
    6. Aproximar o desenho do homelab de princípios utilizados em arquiteturas de infraestrutura de ambientes corporativos, mantendo a escala compatível com um laboratório doméstico.

Fase 1 — Estabelecendo o núcleo L3

Domínio de Roteamento: Cisco C1111-4P + Catalyst 3560CX

1. Objetivo

Estabelecer o primeiro domínio de roteamento do homelab utilizando:

  • Cisco Catalyst 3560CX como switch Layer 3 / core;
  • Cisco C1111-4P como roteador upstream;
  • um enlace Layer 3 ponto a ponto entre os equipamentos;
  • roteamento inter-VLAN realizado pelo 3560CX;
  • rotas estáticas entre os dois equipamentos.

Nesta etapa ainda não existe OSPF, BGP, NAT, Internet ou OPNsense conectado.

O objetivo é construir e validar uma base funcional de roteamento antes de introduzir protocolos de roteamento dinâmico.

2. Topologia

INCLUIR O DESENHO DA TOPOLOGIA AQUI

3. Endereçamento

FunçãoEquipamentoInterfaceEndereços
P2PCisco C1111-4PGi0/0/010.255.255.1/30
P2PCatalyst 3560CXGi0/1210.255.255.2/30
Gateway VLAN 10Catalyst 3560CXVlan1010.10.10.1/24
Gateway VLAN 20Catalyst 3560CXVlan2010.10.10.1/24
Host de testeNixOSGi0/110.10.10.10/24
Host de testeWindows 11Gi0/210.10.10.10/24

Gateways dos hosts:

VLAN 10 → 10.10.10.1
VLAN 20 → 10.10.20.1

4. Papel de cada equipamento

Catalyst 3560CX

O 3560CX atua como Layer 3 Core.

Responsabilidades nesta etapa:

  • criar as VLANs;
  • fornecer os gateways das VLANs através de SVIs;
  • realizar o roteamento inter-VLAN;
  • manter as redes diretamente conectadas;
  • encaminhar tráfego externo para o C1111;
  • utilizar o C1111 como default next-hop.

O roteamento é habilitado através de:

ip routing
Cisco C1111-4P

O C1111 atua como roteador upstream do domínio.

Responsabilidades nesta etapa:

  • fornecer o próximo salto para fora das redes diretamente conectadas ao 3560CX;
  • manter rotas de retorno para as VLANs internas;
  • participar do enlace Layer 3 ponto a ponto com o 3560CX.

Nesta etapa ele ainda não possui uma conexão WAN/Internet funcional.

5. Enlace Layer 3 entre os equipamentos

O enlace entre os equipamentos utiliza:

C1111 Gi0/0/0
│
│ 10.255.255.0/30
│
3560CX Gi0/12

Endereçamento:

C1111 → 10.255.255.1/30
3560CX → 10.255.255.2/30
Catalyst 3560CX

A interface foi convertida de Layer 2 para Layer 3:

interface GigabitEthernet0/12
description P2P-to-C1111
no switchport
ip address 10.255.255.2 255.255.255.252
no shutdown

O comando

no switchport

faz com que a interface deixe de ser uma porta de switch Layer 2 e passe a funcionar como uma interface roteada Layer 3.

O roteamento Layer 3 do Catalyst é habilitado através de:

ip routing
Cisco C1111-4P
interface GigabitEthernet0/0/0
description P2P-to-3560CX
ip address 10.255.255.1 255.255.255.252
no shutdown

6. VLANs

Foram criadas duas VLANs iniciais.

VLAN 10 — Management
vlan 10
name MANAGEMENT

Rede: 10.10.10.0/24| Gateway: 10.10.10.1

VLAN 20 — Servers
vlan 20
name SERVERS

Rede: 10.10.20.0/24| Gateway: 10.10.20.1

7. SVIs

O gateway de cada VLAN é uma Switched Virtual Interface (SVI) no 3560CX.

VLAN 10
interface Vlan10
description Management-SVI
ip address 10.10.10.1 255.255.255.0
no shutdown
VLAN 20
interface Vlan20
description Servers-SVI
ip address 10.10.20.1 255.255.255.0
no shutdown

Essas interfaces representam os gateways Layer 3 das respectivas VLANs.

8. Portas de teste

Gi0/1 — VLAN 10
interface GigabitEthernet0/1
description TEST-MGMT
switchport mode access
switchport access vlan 10
no shutdown

Host conectado:

10.10.10.10/24
Gateway: 10.10.10.1
Gi0/2 — VLAN 20
interface GigabitEthernet0/2
description TEST-SERVER
switchport mode access
switchport access vlan 20
no shutdown

Host conectado:

10.10.20.10/24
Gateway: 10.10.20.1

9. Tabela de roteamento — 3560CX

Após habilitar ip routing, o Catalyst passou a conhecer as redes diretamente conectadas:

C 10.10.10.0/24 → Vlan10
L 10.10.10.1/32 → Vlan10
C 10.10.20.0/24 → Vlan20
L 10.10.20.1/32 → Vlan20
C 10.255.255.0/30 → GigabitEthernet0/12
L 10.255.255.2/32 → GigabitEthernet0/12

Onde:

  • C = Connected
  • L = Local

10. Roteamento inter-VLAN

Nesse estágio, o 3560CX possui:

VLAN 10
10.10.10.0/24
Gateway 10.10.10.1
↕
Layer 3 Routing
↕
VLAN 20
10.10.20.0/24
Gateway 10.10.20.1

Como o ip routing está habilitado no Catalyst, o equipamento pode encaminhar pacotes entre essas duas redes.

Foi validado com sucesso:

10.10.10.10 → 10.10.20.10
10.10.20.10 → 10.10.10.10

Isso confirma o funcionamento do roteamento inter-VLAN.

11. Rota default do 3560CX

O Catalyst não possui, nesta etapa, uma rota específica para redes externas.

Foi então criada uma rota default:

ip route 0.0.0.0 0.0.0.0 10.255.255.1

Representação:

DEFAULT
│
▼
10.255.255.1
│
▼
C1111

Tabela:

S* 0.0.0.0/0 [1/0] via 10.255.255.1

Onde:

  • S = Static
  • * = candidate default
  • 0.0.0.0/0 = qualquer destino não conhecido por uma rota mais específica
  • 10.255.255.1 = next-hop

12. Rotas de retorno no C1111-4P

O C1111 precisa saber como retornar às redes internas.

Foram configuradas:

ip route 10.10.10.0 255.255.255.0 10.255.255.2
ip route 10.10.20.0 255.255.255.0 10.255.255.2

Tabela resultante:

S 10.10.10.0/24 → 10.255.255.2
S 10.10.20.0/24 → 10.255.255.2
C 10.255.255.0/30 → Gi0/0/0
L 10.255.255.1/32 → Gi0/0/0

Assim existe simetria:

ida
VLAN 10 ──► 3560CX ──► C1111
10.255.255.1
volta
VLAN 10 ◄── 3560CX ◄── C1111
10.255.255.2

Esse mesmo princípio vale para VLAN 20.

13. Conceito importante: rota ≠ ARP

Um dos pontos fundamentais validados nesta etapa foi a diferença entre:

  • tabela de roteamento
  • CEF
  • ARP

Para um destino como:

8.8.8.8

o 3560CX não precisa descobrir o MAC de 8.8.8.8.

Primeiro ele consulta o encaminhamento:

8.8.8.8
│
▼
CEF
│
▼
0.0.0.0/0
│
▼
next-hop 10.255.255.1
│
▼
GigabitEthernet0/12

Então o ARP é necessário para descobrir o MAC do next-hop diretamente conectado:

10.255.255.1

e não de:

8.8.8.8

14. Validação do CEF

Foi utilizado:

show ip cef 8.8.8.8

Resultado:

0.0.0.0/0
nexthop 10.255.255.1 GigabitEthernet0/12

Isso confirma o caminho de encaminhamento:

Destino:
8.8.8.8
Rota utilizada:
0.0.0.0/0
Next-hop:
10.255.255.1
Interface:
GigabitEthernet0/12
Nota

Nesta etapa isso não significa que 8.8.8.8 seja alcançável, pois o C1111 ainda não possui uma saída WAN/Internet configurada.

Apenas significa que, caso o 3560CX receba um pacote destinado a 8.8.8.8, sua decisão de encaminhamento será enviá-lo ao C1111.

15. Fluxo de um pacote entre VLANs

Exemplo:

NixOS
10.10.10.10
│
│ destino 10.10.20.10
▼
Gateway 10.10.10.1
│
▼
3560CX
│
│ routing
▼
VLAN 20
│
▼
10.10.20.10

O host percebe que 10.10.20.10 está fora da sua rede /24, portanto envia o quadro ao seu gateway:

10.10.10.1

O 3560CX então roteia o pacote para: 10.10.20.10

16. Fluxo de um pacote para uma rede externa

Exemplo conceitual:

NixOS
10.10.10.10
│
▼
Gateway
10.10.10.1
│
▼
3560CX
│
│ sem rota específica
▼
Default Route
0.0.0.0/0
│
▼
10.255.255.1
│
▼
C1111

Nesta etapa o fluxo termina conceitualmente no C1111 porque ainda não existe uma rede externa configurada.

17. Comandos de verificação

ItemComando
Interfacesshow ip interface brief
VLANsshow vlan brief
Rotasshow ip route
Rota defaultshow ip route 0.0.0.0
CEFshow ip cef 8.8.8.8
ARPshow ip arp
Configuração atualshow running-config
Configuração persistidashow startup-config

18. Validação final da Etapa 1

Catalyst 3560CX
show ip route

Deve apresentar, conceitualmente:

S* 0.0.0.0/0 via 10.255.255.1
C 10.10.10.0/24 → Vlan10
L 10.10.10.1/32 → Vlan10
C 10.10.20.0/24 → Vlan20
L 10.10.20.1/32 → Vlan20
C 10.255.255.0/30 → Gi0/12
L 10.255.255.2/32 → Gi0/12
Cisco C1111-4P

Deve apresentar:

S 10.10.10.0/24 via 10.255.255.2
S 10.10.20.0/24 via 10.255.255.2
C 10.255.255.0/30 → Gi0/0/0
L 10.255.255.1/32 → Gi0/0/0
Conectividade validada
10.10.10.10 ↔ 10.10.20.10
│
└── inter-VLAN routing OK
3560CX ↔ C1111
│
└── L3 P2P OK
C1111 → 10.10.10.1
│
└── OK
C1111 → 10.10.20.1
│
└── OK

19. Persistência

Após a validação final, foi executado nos dois equipamentos:

copy running-config startup-config

Após isso, o estado da Etapa 1 estará persistido em startup-config.

20. Estado final

Routing model

INCLUIR O DESENHO DA TOPOLOGIA AQUI

3560CX
├── Connected
│ ├── 10.10.10.0/24
│ ├── 10.10.20.0/24
│ └── 10.255.255.0/30
│
└── Static Default
└── 0.0.0.0/0
└── 10.255.255.1
C1111
├── Connected
│ └── 10.255.255.0/30
│
└── Static
├── 10.10.10.0/24
│ └── 10.255.255.2
│
└── 10.10.20.0/24
└── 10.255.255.2

21. O que esta etapa estabeleceu

Ao final desta etapa, o homelab possui seu primeiro domínio de roteamento Layer 3 funcional.

Foram estabelecidos os seguintes fundamentos:

  1. VLANs como domínios Layer 2;
  2. SVIs como gateways Layer 3;
  3. roteamento inter-VLAN;
  4. interfaces físicas convertidas em interfaces Layer 3;
  5. enlace ponto a ponto /30;
  6. redes diretamente conectadas;
  7. rotas estáticas;
  8. rota default;
  9. next-hop;
  10. ARP para resolução do próximo salto;
  11. CEF para encaminhamento;
  12. rotas de retorno;
  13. persistência da configuração.

O domínio funciona sem a necessidade de protocolo de roteamento dinâmico.

Na próxima etapa, o objetivo será introduzir OSPF, substituindo progressivamente as rotas estáticas por roteamento dinâmico e observando como o comportamento do domínio muda.