Um dos maiores desafios em um homelab é a arquitetura de rede. É muito comum começar com uma estrutura totalmente plana (todos os hosts na mesma VLAN), o que atende bem aos testes iniciais, mas logo vira um gargalo com a expansão dos serviços.
No passado, a adoção de um switch MikroTik CRS226-24G-2S+RM resolveu o problema imediato ao permitir a criação de VLANs e a segmentação do tráfego, mas ainda assim, a arquitetura continuava engessada, limitando a execução de novos projetos.
Essa limitação, aliada à chegada de novas tecnologias e à necessidade de explorar outras soluções, foi o que motivou o redesenho completo da rede — e a escrita deste artigo.
O texto está estruturado em fases que registram a evolução da topologia. Cada etapa detalha objetivos, endereçamento, configurações e validações.
Aviso
Este artigo é um registro de aprendizado, não um guia de implementação. Ele documenta as decisões e testes realizados em ambiente próprio e controlado. Como cada infraestrutura possui particularidades, adapte os conceitos à sua realidade antes de reproduzi-los.
Fase 0 - Arquitetura & Objetivos
1. Estado Original
- Cenário inicial: O homelab foi originalmente construído em torno de uma arquitetura simples, centralizada no OPNsense como gateway, firewall e elemento de roteamento entre as VLANs. A conectividade interna era concentrada em um único switch, atendendo simultaneamente às funções de switching, transporte de VLANs e conexão dos principais serviços do ambiente.
- Topologia / Setup: OPNsense -> Trunk 802.1Q -> MikroTik CRS226-24G-2S+RM
- Equipamentos e tecnologias em uso: O ambiente utilizava OPNsense como firewall/gateway, MikroTik CRS226 como switch principal, VLANs 802.1Q para segmentação lógica e TrueNAS/Proxmox como plataformas para armazenamento e virtualização. A arquitetura era funcional e adequada ao estágio inicial do homelab, mas concentrava responsabilidades importantes em poucos elementos da infraestrutura.
2. Limitações Identificadas
- Gargalo 1 — Concentração de funções: O desenho concentrava switching, transporte de VLANs e interconexão dos principais componentes em um único equipamento, limitando a evolução da arquitetura e aumentando a dependência do switch central.
- Gargalo 2 — Separação limitada entre funções de rede: A arquitetura não representava claramente uma divisão entre routing, security e switching, dificultando a exploração prática de uma arquitetura hierárquica e de responsabilidades mais próximas das encontradas em ambientes corporativos.
- Gargalo 3 — Baixa capacidade de experimentação: A infraestrutura anterior atendia bem às necessidades operacionais do homelab, porém oferecia poucas oportunidades para estudar, de forma prática, conceitos como inter-VLAN routing, políticas de acesso, redundância de funções, arquitetura de campus e operação de equipamentos de rede enterprise.
3. Objetivos
- Objetivo Principal: Reestruturar a arquitetura de rede do homelab, introduzindo uma separação mais clara entre firewall/security, routing e switching, utilizando o Cisco C1111-4P e o Catalyst 3560CX como elementos dedicados da nova arquitetura.
- Objetivos Secundários:
- Transformar o homelab em uma plataforma prática para estudo e experimentação de Cisco IOS, switching, routing e segurança de rede.
- Evoluir a segmentação existente, preservando as VLANs e políticas já estabelecidas onde fizer sentido.
- Reduzir a concentração de responsabilidades em um único equipamento.
- Criar uma arquitetura que permita testar diferentes cenários sem comprometer desnecessariamente os serviços existentes.
- Documentar o processo de migração, incluindo decisões, trade-offs, problemas encontrados e validações realizadas.
- Aproximar o desenho do homelab de princípios utilizados em arquiteturas de infraestrutura de ambientes corporativos, mantendo a escala compatível com um laboratório doméstico.
Fase 1 — Estabelecendo o núcleo L3
1. Objetivo
Estabelecer o primeiro domínio de roteamento do homelab utilizando:
- Cisco Catalyst 3560CX como switch Layer 3 / core;
- Cisco C1111-4P como roteador upstream;
- um enlace Layer 3 ponto a ponto entre os equipamentos;
- roteamento inter-VLAN realizado pelo 3560CX;
- rotas estáticas entre os dois equipamentos.
Nesta etapa ainda não existe OSPF, BGP, NAT, Internet ou OPNsense conectado.
O objetivo é construir e validar uma base funcional de roteamento antes de introduzir protocolos de roteamento dinâmico.
2. Topologia
INCLUIR O DESENHO DA TOPOLOGIA AQUI
3. Endereçamento
| Função | Equipamento | Interface | Endereços |
|---|---|---|---|
| P2P | Cisco C1111-4P | Gi0/0/0 | 10.255.255.1/30 |
| P2P | Catalyst 3560CX | Gi0/12 | 10.255.255.2/30 |
| Gateway VLAN 10 | Catalyst 3560CX | Vlan10 | 10.10.10.1/24 |
| Gateway VLAN 20 | Catalyst 3560CX | Vlan20 | 10.10.10.1/24 |
| Host de teste | NixOS | Gi0/1 | 10.10.10.10/24 |
| Host de teste | Windows 11 | Gi0/2 | 10.10.10.10/24 |
Gateways dos hosts:
VLAN 10 → 10.10.10.1VLAN 20 → 10.10.20.14. Papel de cada equipamento
O 3560CX atua como Layer 3 Core.
Responsabilidades nesta etapa:
- criar as VLANs;
- fornecer os gateways das VLANs através de SVIs;
- realizar o roteamento inter-VLAN;
- manter as redes diretamente conectadas;
- encaminhar tráfego externo para o C1111;
- utilizar o C1111 como default next-hop.
O roteamento é habilitado através de:
ip routingO C1111 atua como roteador upstream do domínio.
Responsabilidades nesta etapa:
- fornecer o próximo salto para fora das redes diretamente conectadas ao 3560CX;
- manter rotas de retorno para as VLANs internas;
- participar do enlace Layer 3 ponto a ponto com o 3560CX.
Nesta etapa ele ainda não possui uma conexão WAN/Internet funcional.
5. Enlace Layer 3 entre os equipamentos
O enlace entre os equipamentos utiliza:
C1111 Gi0/0/0 │ │ 10.255.255.0/30 │3560CX Gi0/12Endereçamento:
C1111 → 10.255.255.1/303560CX → 10.255.255.2/30A interface foi convertida de Layer 2 para Layer 3:
interface GigabitEthernet0/12 description P2P-to-C1111 no switchport ip address 10.255.255.2 255.255.255.252 no shutdownO comando
no switchportfaz com que a interface deixe de ser uma porta de switch Layer 2 e passe a funcionar como uma interface roteada Layer 3.
O roteamento Layer 3 do Catalyst é habilitado através de:
ip routinginterface GigabitEthernet0/0/0 description P2P-to-3560CX ip address 10.255.255.1 255.255.255.252 no shutdown6. VLANs
Foram criadas duas VLANs iniciais.
vlan 10 name MANAGEMENTRede: 10.10.10.0/24| Gateway: 10.10.10.1
vlan 20 name SERVERSRede: 10.10.20.0/24| Gateway: 10.10.20.1
7. SVIs
O gateway de cada VLAN é uma Switched Virtual Interface (SVI) no 3560CX.
interface Vlan10 description Management-SVI ip address 10.10.10.1 255.255.255.0 no shutdowninterface Vlan20 description Servers-SVI ip address 10.10.20.1 255.255.255.0 no shutdownEssas interfaces representam os gateways Layer 3 das respectivas VLANs.
8. Portas de teste
interface GigabitEthernet0/1 description TEST-MGMT switchport mode access switchport access vlan 10 no shutdownHost conectado:
10.10.10.10/24Gateway: 10.10.10.1interface GigabitEthernet0/2 description TEST-SERVER switchport mode access switchport access vlan 20 no shutdownHost conectado:
10.10.20.10/24Gateway: 10.10.20.19. Tabela de roteamento — 3560CX
Após habilitar ip routing, o Catalyst passou a conhecer as redes diretamente conectadas:
C 10.10.10.0/24 → Vlan10L 10.10.10.1/32 → Vlan10
C 10.10.20.0/24 → Vlan20L 10.10.20.1/32 → Vlan20
C 10.255.255.0/30 → GigabitEthernet0/12L 10.255.255.2/32 → GigabitEthernet0/12Onde:
C= ConnectedL= Local
10. Roteamento inter-VLAN
Nesse estágio, o 3560CX possui:
VLAN 1010.10.10.0/24Gateway 10.10.10.1
↕ Layer 3 Routing ↕
VLAN 2010.10.20.0/24Gateway 10.10.20.1Como o ip routing está habilitado no Catalyst, o equipamento pode encaminhar pacotes entre essas duas redes.
Foi validado com sucesso:
10.10.10.10 → 10.10.20.1010.10.20.10 → 10.10.10.10Isso confirma o funcionamento do roteamento inter-VLAN.
11. Rota default do 3560CX
O Catalyst não possui, nesta etapa, uma rota específica para redes externas.
Foi então criada uma rota default:
ip route 0.0.0.0 0.0.0.0 10.255.255.1Representação:
DEFAULT │ ▼ 10.255.255.1 │ ▼ C1111Tabela:
S* 0.0.0.0/0 [1/0] via 10.255.255.1Onde:
S= Static*= candidate default0.0.0.0/0= qualquer destino não conhecido por uma rota mais específica10.255.255.1= next-hop
12. Rotas de retorno no C1111-4P
O C1111 precisa saber como retornar às redes internas.
Foram configuradas:
ip route 10.10.10.0 255.255.255.0 10.255.255.2
ip route 10.10.20.0 255.255.255.0 10.255.255.2Tabela resultante:
S 10.10.10.0/24 → 10.255.255.2S 10.10.20.0/24 → 10.255.255.2
C 10.255.255.0/30 → Gi0/0/0L 10.255.255.1/32 → Gi0/0/0Assim existe simetria:
idaVLAN 10 ──► 3560CX ──► C1111 10.255.255.1
voltaVLAN 10 ◄── 3560CX ◄── C1111 10.255.255.2Esse mesmo princípio vale para VLAN 20.
13. Conceito importante: rota ≠ ARP
Um dos pontos fundamentais validados nesta etapa foi a diferença entre:
- tabela de roteamento
- CEF
- ARP
Para um destino como:
8.8.8.8o 3560CX não precisa descobrir o MAC de 8.8.8.8.
Primeiro ele consulta o encaminhamento:
8.8.8.8 │ ▼CEF │ ▼0.0.0.0/0 │ ▼next-hop 10.255.255.1 │ ▼GigabitEthernet0/12Então o ARP é necessário para descobrir o MAC do next-hop diretamente conectado:
10.255.255.1e não de:
8.8.8.814. Validação do CEF
Foi utilizado:
show ip cef 8.8.8.8Resultado:
0.0.0.0/0 nexthop 10.255.255.1 GigabitEthernet0/12Isso confirma o caminho de encaminhamento:
Destino:8.8.8.8
Rota utilizada:0.0.0.0/0
Next-hop:10.255.255.1
Interface:GigabitEthernet0/12Nota
Nesta etapa isso não significa que 8.8.8.8 seja alcançável, pois o C1111 ainda não possui uma saída WAN/Internet configurada.
Apenas significa que, caso o 3560CX receba um pacote destinado a 8.8.8.8, sua decisão de encaminhamento será enviá-lo ao C1111.
15. Fluxo de um pacote entre VLANs
Exemplo:
NixOS10.10.10.10 │ │ destino 10.10.20.10 ▼Gateway 10.10.10.1 │ ▼3560CX │ │ routing ▼VLAN 20 │ ▼10.10.20.10O host percebe que 10.10.20.10 está fora da sua rede /24, portanto envia o quadro ao seu gateway:
10.10.10.1O 3560CX então roteia o pacote para: 10.10.20.10
16. Fluxo de um pacote para uma rede externa
Exemplo conceitual:
NixOS10.10.10.10 │ ▼Gateway10.10.10.1 │ ▼3560CX │ │ sem rota específica ▼Default Route0.0.0.0/0 │ ▼10.255.255.1 │ ▼C1111Nesta etapa o fluxo termina conceitualmente no C1111 porque ainda não existe uma rede externa configurada.
17. Comandos de verificação
| Item | Comando |
|---|---|
| Interfaces | show ip interface brief |
| VLANs | show vlan brief |
| Rotas | show ip route |
| Rota default | show ip route 0.0.0.0 |
| CEF | show ip cef 8.8.8.8 |
| ARP | show ip arp |
| Configuração atual | show running-config |
| Configuração persistida | show startup-config |
18. Validação final da Etapa 1
show ip routeDeve apresentar, conceitualmente:
S* 0.0.0.0/0 via 10.255.255.1
C 10.10.10.0/24 → Vlan10L 10.10.10.1/32 → Vlan10
C 10.10.20.0/24 → Vlan20L 10.10.20.1/32 → Vlan20
C 10.255.255.0/30 → Gi0/12L 10.255.255.2/32 → Gi0/12Deve apresentar:
S 10.10.10.0/24 via 10.255.255.2S 10.10.20.0/24 via 10.255.255.2
C 10.255.255.0/30 → Gi0/0/0L 10.255.255.1/32 → Gi0/0/010.10.10.10 ↔ 10.10.20.10 │ └── inter-VLAN routing OK
3560CX ↔ C1111 │ └── L3 P2P OK
C1111 → 10.10.10.1 │ └── OK
C1111 → 10.10.20.1 │ └── OK19. Persistência
Após a validação final, foi executado nos dois equipamentos:
copy running-config startup-configApós isso, o estado da Etapa 1 estará persistido em startup-config.
20. Estado final
INCLUIR O DESENHO DA TOPOLOGIA AQUI
3560CX├── Connected│ ├── 10.10.10.0/24│ ├── 10.10.20.0/24│ └── 10.255.255.0/30│└── Static Default └── 0.0.0.0/0 └── 10.255.255.1C1111├── Connected│ └── 10.255.255.0/30│└── Static ├── 10.10.10.0/24 │ └── 10.255.255.2 │ └── 10.10.20.0/24 └── 10.255.255.221. O que esta etapa estabeleceu
Ao final desta etapa, o homelab possui seu primeiro domínio de roteamento Layer 3 funcional.
Foram estabelecidos os seguintes fundamentos:
- VLANs como domínios Layer 2;
- SVIs como gateways Layer 3;
- roteamento inter-VLAN;
- interfaces físicas convertidas em interfaces Layer 3;
- enlace ponto a ponto
/30; - redes diretamente conectadas;
- rotas estáticas;
- rota default;
- next-hop;
- ARP para resolução do próximo salto;
- CEF para encaminhamento;
- rotas de retorno;
- persistência da configuração.
O domínio funciona sem a necessidade de protocolo de roteamento dinâmico.
Na próxima etapa, o objetivo será introduzir OSPF, substituindo progressivamente as rotas estáticas por roteamento dinâmico e observando como o comportamento do domínio muda.